Liberdade de ler

Sou parecerista voluntária do Projeto de Remição da Pena pela Leitura, levado a cabo pela editora Companhia das Letras, em parceria com a Funap – Fundação de Amparo ao Preso, desde março de 2018 e nessa condição fui convidada a participar do evento de divulgação dos resultados da avaliação realizada entre os participantes. Confesso que cheguei ao evento um pouco desanimada com a leitura do artigo enviado pelos coordenadores do projeto à Folha de S.Paulo no dia anterior. Quer dizer que há quem entenda que por terem “causado danos à população” os detentos não devem ter a chance de participar dos clubes?

Bem, para ficar na superfície da questão e não perder o foco do texto, retomo lição básica de Direito: a pena é a privação da liberdade, ponto. Tudo o que ultrapassá-la não é mais pena, e passa a ter outro nome: vingança, maldade, medo, sei lá. Aqui, faço mais uma pausa para sugerir outro texto recente da Folha, esse de autoria do colunista Joel Pinheiro da Fonseca, em que propõe a reflexão sobre o inquisidor que há dentro de cada um de nós.

Pois bem. A primeira parte do evento foi um vídeo-compilação de depoimentos de funcionários da editora Companhia das Letras, da Funap e de dois detentos participantes dos clubes. Registro o entusiasmo de todos, a emoção de alguns. Escolho citar o mediador do clube de leitura da Penitenciária de Mirandópolis, que com uma simplicidade cortante, arremata seu depoimento: “Eu gosto muito do que eu faço”. Gostar do que faz é a chave para a vida, não tenho dúvida, assim como é para a literatura. A gente pode alinhavar dezenas de razões para ler, mas realmente lê porque gosta, porque a literatura pode ser, acima de tudo, prazerosa.

Mas ela pode ir além, é claro. Em outro momento do vídeo, a escritora Marta Batalha defende os clubes das penitenciárias pelo direito dos presos de poder pensar, refletir: “você também tem o direito de ter uma opinião sobre o que leu”, garante a romancista ao preso.

Partindo então do prazer, desenrola-se um fio que passa pela estruturação de uma opinião, pela escolha e desenvolvimento dos meios para comunicá-la e eventualmente defendê-la de ataques, e vai dar, é claro, em um indivíduo que não só passa a pensar o mundo (descobre um mundo?), mas que começa a poder nomear o que sente, colocar palavras onde antes só havia o vazio.

O que dizer de tudo isso? No mínimo, extraordinário.

Mas o evento seguiu com um debate sobre o que poderia ser melhorado no exitoso projeto, chegando-se à conclusão, quase por consenso, de que é necessário ir mais longe e buscar meios de alcançar também aqueles que ainda não eram leitores ao entrar no sistema prisional (sim, a boa escolaridade dos participantes do projeto foi um dos dados significativos trazidos pela avaliação).

E nesse caminho, técnicas diversas, como leitura em grupo (em voz alta) e outros modelos de mediação poderão ajudar. Ouvir o outro, e perceber que preciso dele para completar a minha leitura é um meio de compreender que o diferente é necessário, lembrou a senhora Catalina, uma das presentes na plateia do evento.

Sério que tudo isso pode ser feito a partir da literatura? E partindo de textos incríveis? Volto ao começo do fio: adoro!

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O que é traição?

Antes mesmo de começar a ler Judas, do escritor israelense Amós Oz, eu já sabia pelas inúmeras resenhas de divulgação que havia lido, que a proposta da obra era um novo olhar para a traição que teria sido perpetrada pelo famoso discípulo de Jesus. Um dos 12, Judas passou à História como aquele que teria entregado Cristo aos soldados romanos por um punhado de moedas após um traiçoeiro beijo.

De acordo com a ideia defendida na obra, Judas não seria um traidor, mas apenas um dissidente, posição que o autor vai sustentar como quase sempre mal vista e dificilmente compreendida. Amós Oz, ele próprio, é comumente criticado entre seu próprio povo, pois ousa discordar publicamente dos rumos militaristas que o país tomou nas últimas décadas. Até aí chegavam as resenhas.

Após a leitura, é possível descobrir outras proposições, e mesmo discordando de algumas, reconhecer os méritos do ensaísmo na disseminação de novas ideias. Na contramão de dois mil anos de História, o autor vai defender com charme e qualidade literária que Judas teria feito interpretação mais fiel do que outros apóstolos do que era seguir Cristo, e por levar sua fidelidade às últimas consequências, teria sido condenado para todo o sempre.

Não precisamos concordar com os pormenores religiosos defendidos na narrativa para deixar-nos seduzir pelo prazer da leitura de um texto bem escrito, uma história bem contada. Não é preciso esforço para se interessar pelo personagem principal, o jovem universitário Shmuel, que em um momento de crise, de perda de motivação para seu trabalho acadêmico sobre a figura de Jesus para os judeus, vai trabalhar como cuidador de idoso. Acompanhá-lo em suas buscas pela inspiração em uma casa misteriosa, onde residem um velho pensador e uma enigmática e atraente mulher, ambos visceralmente ligados à história da formação do Estado de Israel, é render-se às artimanhas da literatura e deixar-se guiar por elas.

Mas se não há negar que pensar diferente incomoda, causa problemas, e muitas vezes leva à segregação ou até mesmo à exclusão, o que dizer de uma deslealdade declarada?

É que outra leitura, a do livro Filho do Hamas, ditado por Mosab Hassan Yousef ao jornalista Ron Brackin, remeteu-me violentamente de volta a Judas.

Aqui, nesta segunda história, não parece haver dúvidas, zonas cinzentas, interpretações. Filho de um respeitado xeique palestino, um dos fundadores do grupo extremista Hamas, o personagem principal abandona a luta ao lado do seu povo para colaborar como informante do Shin Bet, o serviço secreto israelense. Como tal, passa a espionar e entregar amigos, familiares, e por fim o próprio pai – protege-o da morte, é fato, mas mina sua causa.

Para a leitura de Filho do Hamas não contamos com os prazeres da escrita literária para amenizar a narrativa. Sem grandes recursos estilísticos, somos lançados de encontro a uma ideia chocante, a da traição nua e crua que fomos ensinados a rejeitar. De forma mais traumática do que em Judas, portanto, somos impelidos a raciocinar na contramão do que nos é ensinado há muitos séculos ao tentar entender as razões – mal explicadas no texto, repito – que levaram o personagem a guinada tão radical. O que é traição? De que lado devemos estar quando passamos a pensar diferente de nossa comunidade, de nossa própria família?

Muitas perguntas, talvez poucas respostas. De leitura em leitura, o mundo vai ficando maior.

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Quem sou

Meu nome é Roberta Resende. Sou graduada em Direito pela USP (turma de 1995), e creio profundamente no funcionamento do mundo a partir do respeito ao direito do outro, assim me esforçando para viver.
Fiz uma especialização lato sensu em Língua Portuguesa em 2003, ocasião em que me encantei com o estudo da língua.
Logo em seguida, tive a oportunidade de trabalhar como revisora de textos e assistente editorial na tradicionalíssima editora Revista dos Tribunais. Apaixonei-me pelo ofício, que há alguns anos exerço como autônoma.
Outras atividades também colaboram para que eu siga me alimentando de palavras: mantenho há oito anos a coluna Lauda Legal para resenha de livros jurídicos no portal Migalhas e tenho a alegria de participar como mediadora do projeto de Clubes de Leitura da editora Companhia das Letras.

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Operação massacre

Operação Massacre – Rodolfo Walsh (Companhia das Letras, 2010) Narrativa minuciosa, envolvente, dos acontecimentos de uma única madrugada nos arredores de Buenos Aires em que um terrível fuzilamento é levado a cabo.  

Cada um dos relatos do ocorrido na trágica noite trazidos aos ouvidos do jornalista Rodolfo Walsh foram paciente e cuidadosamente examinados, sem que nenhum detalhe fosse desprezado, até que o mosaico estivesse terminado. De ouvidos e olhos abertos, Walsh  desmascara a mentira que o governo provisório de então tentou impingir à população argentina, na tentativa de encobrir o crime. 

Em procedimento que lembra o dos bons causídicos da seara criminal, ao reconstituir a trajetória de um grupo de pessoas, o autor recupera a História e muda a própria vida.

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Shakespeare continua na moda 400 anos depois

A mesa “Shakespeare e a Lei” marcou o terceiro dia da Pauliceia Literária, em SP.

Embora tenha escrito suas peças há mais de 400 anos, William Shakespeare ainda está na moda. Neste sábado, 21, no terceiro dia da Pauliceia Literária, festival organizado pela AASP para comemorar os seus 70 anos, a mesa “Shakespeare e a Lei” conduzida por Rodrigo Lacerda, escritor carioca, e José Garcez Ghirardi, professor do curso de Direito da Fundação Getúlio Vargas-GV Law, foi um sucesso. Programada para ter duração de 1h30 como todas as demais, a conversa avançou sobre o intervalo sem que ninguém da plateia houvesse sequer percebido. Pelo contrário: ao aviso de que o bate-papo teria que se encerrar, sob pena de tomar o horário do painel seguinte, o que se ouviu foi um retumbante “ah!”.

De fato, muito ainda poderia ter sido dito. Como apontou Garcez, Shakespeare escreveu em um momento de transição social e política, em um momento em que as leis formalmente perfeitas não agradavam mais aos valores da nova ordem social que se ia estabelecendo. As razões de ser das limitações impostas ao desejo individual que faziam sentido no feudalismo não serviam mais a uma população que agora vivia nas cidades, e que sobretudo precisava do comércio para viver. Quando a apaixonada Julieta pergunta de seu balcão para um extasiado Romeu “O que há em um nome?” e essa indagação encontra eco na plateia elisabetana, está inaugurada a Modernidade. Nasce ali a possibilidade do indivíduo viver conforme as suas escolhas, a chance de se sobrepor à heteronomia até então reinante. Outras razões que não as de Estado, as da coletividade, passam a ser legítimas para guiar os destinos individuais.

Mas esse simples reconhecimento não basta, responde o próprio dramaturgo em outro texto célebre. Quando Edmund, o filho bastardo do Rei Lear, consegue viver plenamente as suas vontades, exercer a sua autonomia em detrimento da tradição social que lhe era imposta, a ordem desaba, predomina o mal. Conforme aponta o professor Garcez, surge o Estado preconizado por Hobbes, o homem lobo do homem, o que a plateia também reconhece como não conveniente. A lei, o Direito, tem então uma virtù, um propósito que vai além da simples instrumentalização pelas classes poderosas, conforme havia denunciado o bardo em outro de seus sucessos, O Mercador de Veneza.

Nas palavras de Garcez, o que Shakespeare percebeu é que a sociedade elisabetana pré-revolução Puritana buscava “um novo estatuto para o desejo individual” – que não sofresse a asfixia medieval, mas que tampouco fosse a única lei a governar a sociedade. Em suma, é uma sociedade que reconhece a distância entre o homem em estado natural e o homem político, tensão registrada por Shakespeare em seus personagens.

Algo muito próximo, talvez, do que vive a sociedade brasileira hoje: uma elite governante corrupta precisa enfrentar protestos por parte da população, mas esses protestos, contudo, não devem ultrapassar alguns limites. Qual o parâmetro apto a regulá-los?

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O aggiornamento da Igreja – uma complicada questão hermenêutica

Nas especulações seguintes à renúncia papal, têm sido muitas as menções ao Concílio Vaticano II e as reformas trazidas por suas constituições, declarações e decretos.

“Buscai primeiramente aquilo que une, antes de buscar o que divide”.
João XXIII

Há 54 anos a sociedade e a Cúria romana também foram surpreendidas por um anúncio papal: João XXIII, “il papa buono”, decidira convocar um Concílio.

Nem condenar heresias, nem proclamar dogma novo – o que o papa propunha à Igreja era um novo Pentecostes, uma nova vinda do Espírito Santo para melhor enfrentar os desafios do mundo moderno: a explosão demográfica, as injustiças sociais, os progressos científicos, o perigo de uma guerra nuclear, as reivindicações por autonomia e participação do homem de então.

É bom lembrar que a Segunda Guerra havia recém-acabado e deixado atrás de si o horror; no âmbito dos costumes, adentrava-se a mítica “década de 1960”, em que o indivíduo buscaria libertar-se de suas amarras. Nesse contexto, Pio XII, antecessor de João XXIII, embora cioso guardião da tradição, já havia começado a abrir espaço para a participação de leigos na Igreja, mas desde que a dogmática e a hierarquia permanecessem intocadas.

Foram ao Concílio pelo menos duas linhas doutrinárias claramente distintas: os tradicionalistas, integrados pelo clero latino em geral (com grande destaque para os espanhóis), que apregoavam a interpretação católica fixa, imutável, sem preocupação com o contexto, que buscavam sobretudo firmar e reafirmar a ideia da Igreja e da patrística como depositório da Revelação; e os progressistas, formados por clérigos dos países do norte da Europa (Alemanha, Bélgica, Holanda) e pelos franceses, que com sua Nouveau Theologie, formavam, nas belas palavras do teólogo João Batista Libânio, “a pequena minoria que tocada pelas perguntas da modernidade, viera reivindicar espaço para a liberdade do sujeito, para a história, para a práxis”.

A diretriz hermenêutica para a harmonização de tendências tão diversas foi proposta no discurso proferido à guisa de abertura pelo próprio João XXIII: o espírito do Concílio deveria ser ecumênico, buscar tudo o que fizesse “acolher pelos homens mais favoravelmente o anúncio da salvação”.

As reuniões estenderam-se de 1962 ao início do ano de 1965, resultando em inúmeros documentos. As quatro constituições aprovadas representam as três grandes vertentes sobre as quais se debruçaram bispos e cardeais do mundo todo: a centralidade da Palavra de Deus; o olhar para dentro da Igreja (aqui se insere o conceito de Igreja e também a liturgia); o olhar da Igreja para o mundo. Mas refletem, sobretudo, as dificuldades de composição entre visões antagônicas, diferentes chaves hermenêuticas para a aplicação e prática da Palavra de Deus.

1) Dei Verbum – A Tradição também é palavra de Deus?

A preparação e redação dessa constituição foi a mais difícil de ser harmonizada, pois trata, em última instância, da discussão acerca do monopólio da verdade revelada. Até então, para a doutrina católica tridentina (redefinida no Concílio de Trento, o Concílio da Contrarreforma) a Revelação apoiava-se em fontes distintas entre si: as Sagradas Escrituras e a Tradição. Sob o propósito do Concílio, fazia-se necessário aproximar-se dos outros cristãos, não católicos (cuja fé apoia-se na ideia luterana do sola Scriptura) pondo fim à ideia de duas fontes distintas e delimitáveis.

É a primeira grande tomada de posição do Concílio, que embora cedendo parcialmente aos conservadores (que impuseram a manutenção da referência à Tradição), consegue redigir, após inúmeras discussões, dissoluções de comissão e instituição de outra, que

A sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim. (Dei Verbum, n. 9). (grifo nosso)

2) Lumen Gentium – O conceito de Igreja

Na redação da constituição destinada a definir o conceito de Igreja os conservadores e progressistas digladiaram-se entre a justificação da hierarquia e a abertura à participação dos fiéis. Para a eclesiologia tradicional, Deus havia escolhido alguns para ser dirigentes de sua Igreja e outros para simplesmente obedecer-lhes, concepções apoiadas em entendimentos expressos por Gregório XVI (1831-1846), que afirmara expressamente que “ninguém pode desconhecer que a Igreja é uma sociedade desigual, na qual Deus destinou a uns como governantes, a outros como servidores. Estes são os leigos, aqueles são os clérigos”; e Pio XI (1922-1939), para quem “Somente o colégio dos pastores tem o direito e a autoridade de dirigir e governar. A massa não tem direito algum a não ser o de deixar-se governar qual rebanho obediente que segue seu Pastor”.

A redação final da constituição Lumen Gentium expressa o conceito de Igreja como corpo místico de Cristo, baseado em teologia de São Paulo. Segundo essa visada hermenêutica, a Igreja não é a instituição hierarquizada, mas sim as diversas comunidades de cristãos espalhadas pelo mundo todo, em diferentes culturas – visão que permite maior respeito ao ecumenismo, já que todos os cristãos, unidos pelo batismo, formariam o corpo de Cristo. Prega a atividade pastoral apoiada na ideia de igual dignidade de todos os fiéis, abrindo espaço para maior participação de leigos nas atividades, e entre eles, às mulheres.

Na prática, a situação teria mudado nas inúmeras paróquias e igrejas espalhadas pelo mundo, mas não na Cúria romana, que teria permanecido altamente hierarquizada, demonstrando a não superação do conflito hermenêutico notado à época do Concílio.

3) Gaudium et Spes – Atividade pastoral

Ao tentar trabalhar a ideia de igualdade entre as atividades dogmática e pastoral da Igreja, o Concílio tentava harmonizar duas vertentes da vida humana: a espiritual e a material. Para a Igreja tradicional, apenas as questões espirituais (a que o cristão acessava por meio da fé e da graça) deveriam ser objeto de preocupação da religião. Aos olhos da visão proposta pelo Concílio, contudo, as condições materiais em que o cristão leva a sua vida (sofrimentos, pobreza, doenças, etc.) seriam razões de identidade entre ele e os apóstolos:

As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. (Gaudium et Spes, 1)

Aqui o conflito hermenêutico deu-se sobretudo a respeito do conceito de “pastoral”. Na abertura do Concílio, o próprio Papa João XXIII disse tratar-se de um “Concílio Pastoral” – no sentido de que não proclamaria dogmas, não proferiria condenações.

Os conservadores, contudo, em razão da crença na dicotomia dogmática x pastoral, em que a atividade pastoral (por preocupar-se com os aspectos terrenos da vida humana) estaria em posição inferiorizada em relação à dogmática, valem-se exatamente desse argumento (de que foi um Concílio apenas Pastoral) para questionar suas resoluções ou até mesmo não colocá-las em prática (caso dos seguidores do bispo francês Marcel Lefèbvre).

4) Sacrosanctum Concilium – Simplificação da Liturgia

A proposta do Concílio é que os atos, celebrações e expressões de culto fossem simplificados e dentro do possível unissem os cristãos, ao contrário de dividi-los. Os padres conciliares descrevem a Liturgia como “a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão de beber o espírito genuinamente cristão”, razão da adoção da missa em vernáculo, com o celebrante virado para a assembleia, e não para o altar, e do incentivo à participação dos fiéis nos diversos atos.

As divergências persistem – A discussão em torno da interpretação dos documentos promulgados pelo Concílio Vaticano II manteve-se acirrada por muitas décadas; o Sínodo dos Bispos realizado em 1985 ainda buscava definir princípios hermenêuticos para o Concílio.

Hoje, mais do que “conservadores” ou “progressistas”, alguns historiadores e analistas da Igreja Católica preferem falar em “neoagostinianos” e “neotomistas”, explicando que o primeiro grupo se oporia a mudanças em razão da visão de mundo pessimista, em que a presença do mal seria razão suficiente para apartá-lo (o mundo) da Igreja; os neotomistas, por sua vez, ostentariam visão mais otimista, abrindo-se para as “alegrias e esperanças” (Gaudium et Spes), crendo que é também no mundo que os cristãos poderão vivê-las.

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Amor de Perdição – Vida de Camilo Castelo Branco

Amor de Perdição A fim de preservar o desfecho e reservar surpresa para os leitores, Migalhas tomou a liberdade de trocar os nomes dos personagens e situá-los em terras tupiniquins. Tiradas essas licenças, a novela que acabamos de acompanhar é adaptação do romance Amor de Perdição, de autoria do escritor português Camilo Castelo Branco, publicada pela primeira vez no ano de 1862 e até hoje muito lida e republicada em Portugal.

Vida de Camilo Castelo Branco
Camilo teve uma vida dramática. Nasceu em 16 de março de 1825, filho de Manuel Correia Botelho Castelo Branco, “de linha varonil não nobre, mas a partir de certa época afidalgada” e Jacinta Rosa, mulher do povo, a quem o marido abandonou depois de certa época. Conviveu muito pouco com a mãe, que morreu antes que ele completasse dois anos. Pouco se sabe de sua vida em Lisboa, onde viveu até completar dez anos, idade em que foi mandado a viver em Vila Real, local de origem de seus antepassados paternos, de onde sairia apenas pelos breves períodos de suas tentativas de estudos superiores.
A formação escolar de Camilo foi irregular, confiada a um padre amigo da família. Em 1843 matricula-se na Faculdade de Medicina no Porto, mas não prossegue nos estudos; em 1845 tenta ainda a carreira jurídica em Coimbra, mas ali também não permanece por muito tempo. Com a deflagração das revoltas populares nas províncias do norte, alista-se e volta para a região de onde não mais sairia.
Casou-se cedo, aos dezesseis anos, com moça ainda mais jovem, a quem abandonou com uma filha logo em seguida; poucos anos depois, uniu-se a outra jovem que morreu tísica em pouco tempo. Em 1858 começa a relacionar-se com uma mulher casada, Ana Plácido, cujo marido processa-os por adultério. Em virtude desse processo os amantes são recolhidos à Cadeia da Relação, no Porto, onde passam mais de um ano aguardando julgamento.

O julgamento acontece na mesma cidade do Porto, aos 16 de outubro de 1861. São enfim absolvidos e vivem juntos até a morte de Ana, em 1885, mas os registros não são de uma vida feliz.
Cinco anos depois da morte da esposa, amargurado pelas dificuldades da vida e pela convivência com uma cegueira progressiva, Camilo, tal qual um de seus trágicos personagens, opta pelo extremo ato de desespero, suicidando-se com um tiro na cabeça no dia 1° de junho de 1890.

A privação da liberdade, o grande mote de Amor de Perdição – É na prisão que Camilo escreve Amor de Perdição, novela em que o amor proibido, contrariado, é pretexto para tratar da privação da liberdade, o grande tema.
Ao longo de todo o texto os protagonistas estão presos: Simão em casa do ferrador, Teresa em casa da família; Simão na cadeia, Teresa no convento. Ambos prisioneiros de pais inflexíveis, intransigentes, que não lhes permitem o direito de escolher a pessoa amada, pais por sua vez também presos a papeis e padrões sociais.
Na esteira dos valores estéticos da época, é na morte que os personagens encontram a redenção, a libertação.

A grande personagem de Camilo, a língua portuguesa – Camilo foi um grande cultor da língua. É comum gramáticos e outros estudiosos buscarem em seus escritos os parâmetros para o bom português. Ao longo da leitura de Amor de Perdição não é raro o leitor surpreender-se com frases belas, seja pela sonoridade, seja pela exatidão da imagem que invocam, seja enfim pelo fato de serem construções divertidíssimas, em que o talento de observador mordaz do autor leva o leitor ao riso.
No segundo capítulo do romance, no momento em que explica a alteração de humor e comportamento do herói (“Simão Botelho amava.”), salta aos olhos – e fica por muito tempo nos ouvidos do leitor – a belíssima versão de Camilo para o “amor à primeira vista”, tão caro ao ideário romântico:
“Da janela do seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá-la sempre.”
Mas como alertam seus críticos, não foi simples a adesão de Camilo a tal escola literária. No início do capítulo IV, já em andamento a oposição das famílias ao romance dos jovens, vai rir – e fazer rir o leitor, é claro – dos arroubos artificiosos da ficção sob tais moldes, em saboroso retrato de sua personagem:
“…Teresa advinha que a lealdade tropeça a cada passo na estrada real da vida, e que os melhores fins se atingem por atalhos, onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na idade inexperta de Teresa; mas a mulher do romance quase nunca é trivial, e esta de que rezam os meus apontamentos era distintíssima. A mim me basta, para crer em sua distinção, a celebridade que ela veio a ganhar à conta da desgraça.”
Poder-se-ia garimpar o romance todo, folha a folha. E assim, nessa toada, ler Camilo Castelo Branco é descobrir potencialidades da língua portuguesa, valorizá-la, prestigiá-la.

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